Inspirada no livro de Paulo
Freire “À Sombra desta Mangueira”, e ouvindo Mercedes Sosa (Sólo le Pido a
Dios) comecei a sentir, a rabiscar estes escritos, e pensar como diz Freire,
que ser educador é mesmo reconhecer a realidade e assumi-la com toda dor que
isso implica e aprender a superar as dificuldades e transformar estas, em
possibilidades.
Quando Freire falava da saudade
de sua terra, do seu quintal, da sombra e do cheiro da mangueira, eu emocionada,
ia refazendo uma viagem à minha humilde infância e pensando... “Eu Cláudia,
também antes de tornar-me cidadã do mundo, fui e sou uma cidadã de Cornélio
Procópio, a partir de meu quintal da infância em Godoy Moreira-PR e depois da
Vila Independência em Cornélio Procópio-PR.”
Como afirma Freire: “a terra que
a gente ama, de que a gente fala e a que se refere, tem sempre um quintal, uma
rua, uma esquina, um cheiro de chão, um frio que corta, um calor que sufoca, um
valor por que se luta, uma carência, uma língua que se fala diferentes
entonações. A terra por que às vezes se dorme mal, terra distante por causa da
qual a gente se aflige tem a ver com o quintal da gente, tem que ver com as
esquinas das ruas, com os sonhos da gente. Em certo momento, a amorosidade pelo
nosso quintal se estende a outros e termina por se alojar numa área maior a que
nos filiamos e em que deitamos raízes, a nossa cidade.”
Antes de ser a Doutora Cláudia,
eu sou primeiro e tão somente a Cláudia, essencialmente, visceralmente, (com
suas dores, sonhos, ideais, afetividade, com seu "olho" de
jabuticaba, com sua luta, a Filha da dona Cleusa e do seu Afonso, Procopense,
Paranaense, depois, Brasileira, Latino-americana. Mãe da Caroline e da Beatriz,
Educadora. E revi minha trajetória na Escola Presidente Costa e Silva em Godoy
Moreira-PR, em Cornélio Procópio na Escola Lourenço Filho, no Alberto Carazzai,
no Castro Alves, no Colégio Cristo Rei, na FAFICOP (hoje UENP), na
UNICAMP.
O Brasil, com a dimensão e a
significação que existe hoje para mim, também não existiria sem minha família,
sem minha cidade, a que se juntaram outras pessoas, outros sonhos, outras
cidades... Como diz Freire: “Quanto
mais enraizado na minha localidade, tanto mais possibilidades tenho de me
espraiar, me mundializar. Ninguém se torna local a partir do universal. O
caminho existencial é inverso.”
Recordei dos meus amigos de infância
e de como queria compartilhar com eles tudo isso... meus horizontes, minhas
viagens, minhas aprendizagens... E
pensei, no quanto temos que ter perseverança, força, resistência aos
sofrimentos, aos obstáculos, às dificuldades financeiras, aos preconceitos, e
no quanto valeu, e vale a pena sentir, e viver tudo isso. Mas também, senti uma
tristeza enorme porque queria fazer mais pela minha cidade, contribuir mais com
a educação do meu povo e muitas vezes, sou privada disso, e sei que poderia
contribuir e gostaria de estar fazendo isto, mas questões político-partidárias
e egos inflados nos impedem.
Me veio, novamente à lembrança,
aquele moço que citei no artigo anterior que conversei na rodoviária de
Campinas, e as milhões de pessoas que não conseguiram superar a visão limitada
do seu quintal, e que sentem a dor da fome, do preconceito, isso é desumano.
Aliás, penso que nossa compreensão de fome não pode ser apenas etimológica,
consultada num dicionário, mas como diz Paulo Freire “ao reconhecer a significação
da palavra, devo conhecer as razões de ser do fenômeno. Se não posso ficar
indiferente à dor de quem tem fome, também não posso sugerir-lhe que sua
situação se deve à vontade de Deus. Isso é mentira.”
Espero como Freire, que daqui
alguns anos, meus velhos amigos, aquele moço e
tantas outras pessoas sofridas possam descobrir que mesmo vivendo numa
sociedade desumanizada, não podemos desistir dos nossos sonhos, e que nossa
luta tem que ser política, para que possamos acordar e superar o atual pesadelo
que nos assombra.
Como diz Freire, que todos possam
perceber que a transformação não se faz com anuência dos poderosos, donos das
multinacionais, dos grandes bancos, da elite; mas que a transformação se faz
com mobilização popular, com oposição, com decisão política e para isto
precisamos de lideranças lúcidas, democráticas, coerentes, precisamos abrir
nossas mentes, precisamos nos educar.
É preciso derrotarmos nas urnas esses
senhores, autores de discursos em que prometem aquilo que sabem que não farão.
Daí a urgência de que a maioria de deserdados e deserdadas se somem e lutemos
todos em favor da libertação, transformando o mundo ofensivo num mundo mais
gentificado. Do ponto de vista político e ético, acrescente-se.Precisamos
democraticamente derrotar gente como esta que pensa primeiro em si, segundo em
si e nunca nos outros, sobretudo se estes pertencem às classes populares.”
(FREIRE)
Nossa luta, educadores tem que
ser contra essa aquelas pessoas individualistas que que sequer conseguiram superar a visão
limitada de si mesmo; nossa luta tem que ser em favor de milhões, do nosso
povo, a quem, até o básico é negado, a esses milhões chamados de cidadãos, mas
que da cidadania são privados.
Escrevi este texto após a leitura
de um dos mais emocionantes e convocatórios livros: “À Sombra Desta Mangueira”
do Mestre Paulo Freire, leitura que deveria ser obrigatória a todos,
especialmente aos educadores, e aos políticos para quem sabe despertar nestes a
virtude da humanidade.
Freire fala do exílio, do Brasil,
do seu sonho de educador; nos faz sofrer e sonhar com ele, nos revigora as
forças e esperanças e nutre nossas utopias. Já de início manifesta sua recusa a
crítica cientificista que insinua falta de rigor no modo como discute os
problemas e na linguagem demasiado afetiva que usa.
Faço minhas, as palavras dele: “a
paixão com que conheço, falo ou escrevo não diminuem o compromisso com que denuncio ou anuncio.
Sou uma inteireza e não uma dicotomia. Não tenho uma parte esquemática,
meticulosa, racionalista e outra desarticulada, imprecisa, querendo
simplesmente bem ao mundo. Conheço meu corpo todo, sentimentos, paixão. Razão
também.”
E continua: “Sou um ser no mundo,
com o mundo e com os outros, um ser que
faz coisas, sabe e ignora, fala, teme e se aventura, sonha e ama, tem raiva e
se encanta. Um ser que se recusa a aceitar a condição de mero objeto; que não
baixa a cabeça diante do indiscutível poder acumulado pela tecnologia...”
Concordo Freire quando esclarece
que, um sistema econômico que não prioriza as necessidades humanas, produzindo
políticas assistencialistas e continua a conviver indiferente com a fome de
milhões, não é merecedor do respeito dos educadores nem de qualquer ser humano.
E salienta que “não me digam que as
coisas são assim porque não podem ser diferentes”. Afirma que as coisas não
mudam porque, se isto ocorresse, “feriria o interesse dos poderosos”, e nos
convoca para a luta da transformação social nos alertando: “Não posso tornar-me
fatalista para satisfazer os interesses dos poderosos. Nem inventar uma explicação
“científica” para encobrir uma mentira... É preciso que a fraqueza dos fracos
se torne uma força capaz de inaugurar a injustiça. Para isso, é necessária uma
recusa definitiva do fatalismo. Somos seres da transformação e não da
adaptação.”
Temos que romper com o determinismo, com os espaços definidos
pelos poderosos como o espaço de sobrevivência da classe dominada. E insiste em
dizer que “a História é possibilidade e não determinismo. Somos seres condicionados,
mas não determinados.” E que devemos entender a História como possibilidade, de
ruptura, de transformação. Afirma que no
exílio, o Brasil todo lhe fazia falta, e insistia em dizer “Sou brasileiro, sem
arrogância; mas pleno de confiança, de identidade, de esperança em que, na
luta, nos refaremos, tornando-nos uma sociedade, menos injusta.” E que se recusava a aceitar que não há nada a
se fazer, diante das conseqüências da globalização da Economia, que devemos nos
recusar a curvar docilmente a cabeça.
Como Freire, nós educadores não
podemos, jamais, aceitar que a prática educativa deva se ater-se tão somente à
“leitura da palavra”, à “leitura do texto”, mas que tem necessariamente que
ater-se também à “leitura do contexto”, à “leitura do mundo”.
Devemos como Paulo Freire diz,
alimentar nosso “ otimismo crítico e nada ingênuo, na esperança que inexiste
para os fatalistas.” Não poderia ainda deixar de citar meu mestre César Nunes que sempre nos convida e
convoca a todos educadores e cidadãos para que continuemos a luta, colocando
que os obstáculos podem retardar nossa vitória, mas não suprimi-la.
(Autora - Cláudia Bonfim)